A Gilsan

   A Gilsan

Não é raro que irmãos sigam a mesma profissão e no cinema desde seu começo os Irmãos Lumière.  Gilberto e eu ele um ano e meio mais novo chegamos ao cinema mas por diferentes caminhos ambos na época dos colégios quando geralmente se inicia a carreira na vida.

Eu vinha mais do interesse pela poesia e literatura ele pela fotografia. E agora é que descobri entre os guardados da família aqui em casa uma de suas primeiras fotos a de sua jovem musa Dodô.

Acabamos nos encontrando como a maioria de nossa geração na Cinemateca do MAM ele no curso em 1965 que resultou no curta “Problema de Regência” dirigido por Paulo Chada de quem tornou-se amigo.

Eu mais interessado nos filmes e demais atividades acabei tendo-o como parceiro na fotografia de meu primeiro filme “Paixão” em 1966 e depois como montador em outros mais. Sem ele não haveria o filme e sua fotografia foi maravilhosa.

A filmagem era meio imprevisível, filmamos em favelas, na PUC, na praia cenários difíceis de luz e enquadramento. A porta de entrada para quase todos nòs na época foram os festivais de cinema amador JB-Mesbla.

Além do meu Gilberto fotografou se não me falha a memória “O Homem e a Fome” de José Alberto Lopes e “Nadja” de Paulo Paranaguá. Sua presença na Cinemateca ainda se fez então na edição de um catálogo sobre o cinema direto.

A partir daí fui eu como assistente de Carlos Diegues em “Os Herdeiros” e ele como fotógrafo de cena em “Capitu” de Paulo Cezar Saraceni.  Em seguida segui eu com meus curtas e ele entregando-se à montagem em mais de 30 longas e curtas.

Ainda em 67 realizou sua pequena obra prima “Cordiais Saudações” vida e obra de Noel Rosa. Ali temos as inesquecíveis presenças de Almirante, “a maior patente do rádio brasileiro”, Araci de Almeida e Marília Batista, as mais próximas intérpretes do compositor, e sua mulher Lindaura.

E na equipe de craques Pedro de Moraes, Juarez Dagoberto, Andreone, na assistência Paulo Martins, narração de Tite de Lemos e Baden Powell no violão, co-produção da Cinemateca do MAM e financiamento da CAIC (Comissão de Auxilio á Industria Cinematográfica do Estado da Guanabara). E fêz mais dois curtas igualmente singelos.

Foi um enorme choque ao ir à sua casa atendendo ao chamado de amigos da Cinemateca que estranharam sua ausência por mais de três dias.  Convidado por Cosme Alves Neto alguns anos antes veio a sucedê-lo na direção da Cinemateca após sua morte.

Ao atender o telefone pareceu-me que não seria tão estranho o seu sumiço todos nós somos dados a sumiços de vez em quando. Podia ter viajado. Logo no entanto me dei conta de que podia ser pior.

Ao entrar em seu apartamento chamado o chaveiro já que a porta estava trancada por dentro o que uma pessoa que mora sozinha nunca deveria fazer foi que deu-me um enorme choque vê-lo caído no chão inerte, só de blusa, todo mijado mas desperto e consciente.

E pediu-me água, estava cheio de sede mas não me atrevi a dar, sem saber às vezes pode ser fatal.  Não fossem os amigos da Cinemateca não saberia o que fazer, apenas o acarinhava de leve, sem mexê-lo, e chorava. Pode parecer bobagem mas nunca pensamos que o mais novo vá primeiro.

Chamada a emergência fomos eu e ele na ambulância já ele sem muitas reações e eu idiotizado preocupado com os saculejos do carro e com o tráfego àquela hora infernal. Outra parada difícil o bom atendimento no Miguel Couto cheio de necessitados e também ele a essa altura diagnosticado o AVC.

Nada entendo de medicina, doenças e remédios não fossem novamente seus amigos da Cinemateca e continuaria eu sem ação já que a transferência para o hospital do plano de saúde Bradesco que o MAM mantém para seus funcionários teria que aguardar a liberação e transporte autorizados pelos médicos.

Desde então e por tantos mais só me restou visitá-lo a cada dia nos avanços e recuos do quadro clínico agravando-se e mais os amigos e amigas que acorriam também para assisti-lo. E ainda perguntou-me se tinha sofrido um AVC e eu confirmei.

Foi grande a sua resistência desde o início.  Imaginar que tenha ficado sem comer e beber por três dias sem socorro no chão de casa ainda mais hipertenso e diabético.

Até que se foi felizmente já com a presença de seu único filho Manuel vindo rápido da Austrália onde mora e sendo ainda reconhecido por ele antes do definitivo coma. Seu tempo se cumpriu o nosso continua se cumprindo.

Fico feliz de promover a exibição de seu “Cordiais Saudações” sempre que possível. E fico feliz de ver que se possa guardá-lo também neste livro.

Rio, 15 de março de 2016

Sergio Santeiro

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