Adeus a Nelson

Na madrugada de 21 de abril morre aos 89 anos Nelson Pereira dos Santos um dos maiores criadores do cinema brasileiro
A primeira vez que vi o Nelson não lembro em que ano foi nem quantos anos eu tinha talvez uns 14.
Nasci e morava em Copacabana na ida e vinda do colégio passava em frente aos cinemas mais de um naquela época uns cinco ou seis ou mais.
O cinema era dominado como ainda agora pelo filme estrangeiro. Era ver coisas e gentes em que a gente não se via.
Tinha as nossas chanchadas tôscas ingênuas o filmusical brasileiro era um veio nosso nossos palhaços nossas trapalhadas mas era um cinema faz de conta encaixotado no estúdio entre um numero musical e a jocosidade que também era nossa o teatro de variedades o teatro revista filmado.
E de repente na marquise do cinema se não me engano era o Copacabana o letreiro anunciava Rio 40 Graus. Foi um impacto. Entrei para ver. Não era o corre corre dos filmes que passavam sorrateiros a divertir platéias.
Era a vida nossa de todos os dias a iniciar-se majestosa com a maravilhosa visão da grande cidade o Rio de Janeiro a capital do Brasil pouco antes assombrada com a tragédia getulista e agora renascendo como uma ópera prima uma primeira construção grandiosa.
Eu sou o samba de seu compadre Zé Keti orquestrado na Rádio Nacional que o país inteiro ouvia.
Era um mosaico de alegrias e tristezas que narrava da favela à praia do subúrbio à política. Os pivetes, o malandro, o trabalhador, o algoz, o fuzileiro, a noivinha, o deputado, a gatinha, o pilantra, o futebol, a escola de samba entremeados o que víamos na tela era o que víamos nas ruas em que vivíamos. E ao fim do filme no alto do morro a mãe espera o filho que não vai voltar a Mater Dolorosa.
Emocionado ao sair do cinema como no filme corri a pegar o bonde que passava na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Felizmente não caí.
Sómente depois muitos anos depois quando resolvi seguir-lhe os passos é que vim a ver não só seus outros tantos filmes a cada um uma nova visão a construir um cinema popular socialista.
Vim a ver o engenho e arte que articulava não só os filmes mas seu plantio nas primeiras escolas de cinema a de Brasília e a nossa a da UFF em Niterói a capital vermelha e na política de cinema especialmente no grupo de trabalho que criou o tripé para a ação do estado: a Embrafilme, o Concine e o Centrocine.
Não basta fazer filmes tem que fazer política para assegurar-nos a presença na tela manipulada pelo imperialismo.
Há de ser desde o seu início ingressado no PCB o Partido Comunista a vanguarda de seu tempo com o seu primeiro o “Juventude” em 1950 um documentário sôbre os jovens de São Paulo como ele mas de que não ficou cópia e nem o original.
E ainda em 52 apresenta ao Congresso do Cinema Brasileiro uma tese que é um marco no cinema brasileiro de antes e de depois: O modo de produção independente.
Insisto em que não precisa ancorá-lo é um êrro no neo realismo italiano seu cinema é o elo de ligação do cinema de autor no Brasil desde sempre notadamente Mário Peixoto e Humberto Mauro.
Além de seus próprios viabilizou filmes dos outros como “O Grande Momento” do Roberto Santos, montou o “Menino da Calça Branca” do Sergio Ricardo, “Barravento” de Glauber Rocha, e o “Pedreira de São Diogo” do Leon Hirzsmam.
E foi o grande animador do Cinema Novo e de todo o cinema que desde então se fêz no Brasil

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