Oitentas

(Pra não dizer que não falei do velho)

Não sei se farei oitenta
É muito tempo
Já nos meus setenta a vivência do passado se acumula
Quanto mais vivemos mais somos testemunha do quanto vivemos
E vamos sendo testemunhas cada vez mais sozinhos
A indesejada das gentes ceifa aqui e ali sem olhar cara ou idade
Já lhes contei o causo:
Esperando o ônibus
Um monte de meninos do morro aporta em algazarra
Uma parede buliçosa se põe na minha frente
Ao chegar a condução
Um deles se vira pra mim e diz
-“Por favor mais velho”
A parede de meninos se abre em duas bandas
Como o mar vermelho
O mais velho que era eu entra em primeiro
Adorei o conceito de mais velho e foi no popular
O conselho de anciãos fundamental nas sociedades tribais não é porque é mais sábio
É porque é mais vivido
É a voz da memória
É a voz do tempo
Passou por onde os mais novos vão passar
Os tempos serão outros
Mais ou menos árduos e difíceis
Melhor ouvir a voz da experiência
Não necessariamente acatá-la mas sabê-la
Não é melhor ser mais velho ou ser mais novo
Cada um a seu tempo
Os novos começam como os velhos começaram
E vão na vida galgando alegrias e tristezas
Só se abatem se forem abatidos ou deixarem-se abater
Senão não
Dá gosto vê-los evoluindo com mais ou menos força
Esguios safos ou pachorrentos
Vê-los já nos dá ânimo
Um dia também alguns seremos oitentões
E nossa lida continuará a cada dia
Aprendemos com eles
E salve a voz que n’A Tribuna clama em A Tribuna chama

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