Aldeias

O cinema é uma aldeia
Desde o início o cinema é um modo de olhar
O que está na frente da câmera
Que é um só olho
É o plano que é o intervalo entre um corte da cena e o próximo
E que a cada vez é único
Não pode ser outro
Na sucessão dos planos é que se monta o contar o que se vê
E cada contar também é único não há dois iguais
O cineasta com seu modo de ver
Expõe a quem assiste o seu modo de contar
Quem assiste procura criar o seu modo de ver
Procurando identidades entre o que vê no filme
E o que vê na vida
Só se pode ver se pode filmar se pode assistir o que se tem diante dos olhos
E como os rolos de filme se desenrolam
Podem ir pra qualquer lugar até para onde não foi filmado
Sempre buscando-se as identidades entre uns e outros
As imagens de onde foi filmado
As imagens de sua aldeia são determinantes
E como todo mundo vivem em aldeias
Tais imagens podem ser identificadas em todos os lugares universalmente
Seja no natural seja no posado
O cinema não tem como se construir sem as imagens do lugar
As imagens da aldeia por mais ou menos fantasiosas que sejam
Um humano não tem como criar imagens que não sejam humanas
E menos ainda querer que os humanos se identifiquem com o que não é humano
Por mais fantasiosos que sejam
O cinema é como um rito de aldeia ao redor do fogo
Que ilumina a cena ao ser filmada e a tela ao ser projetado
Procuremos identificar-nos
Mas o nosso cinema precisou disputar o nosso espaço de nossa aldeia natal
Invadido por aldeias estrangeiras
Ao forçar-se a se identificar com as imagens aqui não filmadas
O estranho é que o nosso cinema acaba por parecer estranho aos nossos aldeões
E o mundo brasileiro acha normal não ver-se no espelho?
E como vai viver sem ver a sua aldeia em que vive?
E nessa ilusão de imagens que não são as nossas
Uma armação insidiosa há décadas infiltrou-se no país
E de sete em sete três vez sete vinte e um golpes quebram nosso espelho

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