
A crise econômica internacional é uma crise de ícones, a começar do ícone maior do sistema econômico global: a moeda. Do euro que derrete ao dólar que estremece, o terremoto financeiro põe a nu as engrenagens da própria representação da riqueza. A cultura, a arte, o mecenato, as leis de incentivo, a economia feita de capitais humanos, sociais e simbólicos não passa ao largo. E se além de vítima da crise, o mundo da representação tivesse em si a semente da reconstrução de uma sociedade global mais harmônica, íntegra e sustentável?
Esse é o espírito do projeto transmídia Moedas Criativas: inverter a determinação causal que sempre colocou a cultura a reboque dos “fatores econômicos” para levar a cabo, numa rede global de experimentação sócio-técnica, o poder criativo contido na liberação do poder coletivo de criação monetária.
Moeda é mídia. No planeta atravessado por novas tecnologias de informação e comunicação, o poder, a técnica e o sentido que emanam da representação maior da riqueza, o fetiche do dinheiro, passam a atuar em sinal contrário, instaurando relações de troca, acumulação, entesouramento, poupança e investimento que aproximam Adam Smith de Georges Bataille, John Maynard Keynes de Michel Foucault, Milton Friedman de Jacques Lacan, o Banco Central de uma galeria de arte e o sistema de crédito de uma poderosa e inovadora máquina de criação e inteligência coletivas.
Moedas Criativas é um jogo, uma rede, um pacto político, uma revolução local que muda o sinal da transformação global. Moeda também é medo.
A crise global trouxe para primeiro plano o imperativo de repensar e reconstruir o marco regulatório global para as atividades financeiras. Também ganhou prioridade a reconexão dos mecanismos e instituições de financiamento ao “mundo real”, ou seja, a atividades com resultados sustentáveis e relevantes para a geração de emprego, conhecimento e identidades locais.
O financiamento à cultura destaca-se entre as necessárias novas “âncoras” da circulação monetária e financeira. E o Brasil já ganha destaque nesse contexto, ao trazer para o centro do debate a reforma das instituições de fomento à cultura, da Lei Rouanet ao “vale cultura”. O projeto “Moedas Criativas” coloca em discussão as novas formas de representação do valor da cultura assim como a cultura dos que lideram a reconstrução do sistema produtivo globalizado. mobilizando entes de governo federal como o Banco Central, a Receita Federal, o Ministério da Ciência e Tecnologia, a Secretaria de Economia Solidária (SENAES) e a USP, assim como expressivas lideranças no ativismo digital e cultural que hoje ampliam os horizontes da economia criativa gerando novas tendências e projetos em comunidades locais que já se lançam ao uso de “moedas criativas”, também conhecidas como “sociais” ou “complementares”.
Essas moedas abrem novas possibilidades de produção e distribuição de bens e serviços culturais, combinam inclusão digital, geração de renda e empoderamento de comunidades locais, abrindo uma nova era de interações (online e offline), em escalas onde ganha densidade o hibridismo entre o local e o global.