Spam: crime ou castigo?
Artigo originalmente publicado na sessão “Virus e Cia” do Terra.
Atire a primeira pedra aquele que nunca acordou no domingo antes do horário de que gostaria por causa de algum vendedor de sorvete, pamonha ou produtos de limpeza em seus carros de som. Quem nunca chegou em casa e encontrou sua caixa de correio lotada de folhetos de pizzaria, supermercados, cartomantes com a promessa de fazer “amarração” para o amor ou aumentar a potência sexual? Há até “correntes” para aumentar sua renda, das quais, se você não tirar trinta cópias e repassar, lamentará alguns anos de azar. E os telefonemas com o intuito de vender assinatura de jornal, revista e cartão de crédito que ocorrem nas horas mais extrordinárias (e inoportunas)? Sem contar aqueles que nos pedem para contribuir com uma instituição de caridade da qual não há prova de que exista a não ser pela pessoa que vem buscar o dinheiro. Todos estes meios de tentar nos tomar a atenção de forma não solicitada existem há muito tempo e a sua evolução para o ambiente tecnológico foi denominada como “spam”.
Hoje, toda caixa de correio na Internet é passível de receber mensagens com promoções de Viagra, Xenical, oferecendo prêmios em dinheiro, formas revolucionárias para o aumento dos seios e do pênis (não importa se você não tenha uma coisa ou outra), links para sites racistas, de pornografia em geral, vendas de equipamentos eletrônicos, meios incríveis de se fazer dinheiro fácil, fotos de pessoas mortas em acidentes (tem quem gosta), fotos de moças russas dispostas a casar com estrangeiros…
E, dentre milhares de outras coisas, você também pode receber e-mails criminosos com programas que guardam tudo que é digitado em seu computador em um arquivo que é enviado periodicamente para o criminoso, ou até mensagens em que o intuito é se passar pelo seu banco, solicitando que seja feito um recadastramento ou algo do tipo, em que você deve acessar um site bem parecido com o do banco do qual você é correntista e inserir suas senhas para que, sem você perceber, outra pessoa tenha acesso à sua conta corrente.
Atualmente o spam é um dos maiores e mais irritantes problemas da Internet e toda esta irrritação resulta em prejuízos relacionados ao tráfego das mensagens, espaço em disco dos servidores de correio, negócios que deixam de ser fechados pelo motivo de uma mailbox estar lotada de mensagens não solicitadas, queda na produtividade dos funcionários, entre outras coisas. Naturalmente mudar de casa para não receber correspondências não solicitadas é bem mais difícil que mudar de endereço de e-mail, mas se este endereço estiver profundamente atrelado à sua marca e conseqüentemente ao seu negócio, tudo fica mais difícil.
Entretanto, se você está assustado com toda esta abrangência do spam, vale a pena lembrar que a velocidade em que um endereço de e-mail cai nas mãos de spammers (pessoas que enviam spam) é extremamente grande. Tentando medir o tempo deste processo, investigadores do Federal Trade Commission nos Estados Unidos postaram alguns endereços tidos como secretos em salas de chat e newsgroups e o primeiro spam chegou nove minutos depois, conforme demonstra o escritor e repórter do New York Times, James Gleick em seu artigo “A plague on E-mail”.
Você deve estar se perguntando: “como meu endereço de e-mail foi parar nas mãos destas pessoas?”. Da mesma forma que existe no mundo físico um mercado de endereços para mala direta ou de empresas para o envio de currículo, antigamente disponíveis em listas de papel e hoje em CDs, também é possivel encontrar, isto é, comprar listas de endereços para spam, e estes endereços na maioria das vezes são uma compilação dos dados obtidos, legalmente ou não, de cadastros em sites. Portanto, se você já se cadastrou em um site qualquer, é bem possível que seu endereço esteja em alguma lista de spam.
O custo deste tipo de negócio (se é que podemos chamar de negócio) para o spammer é quase zero, comparado com uma panfletagem ou aluguel de um carro de som. Basta um computador, uma linha telefônica, no mínimo, para a conexão com a Internet, conhecimento técnico para driblar alguns serviços antispam e pronto! O retorno de uma única mensagem, seja ela criminosa ou não, já valeu o investimento.
Alguns spammers se defendem dizendo que já somos bombardeados por publicidade não desejada no rádio, TV, etc., o que justificaria o spam. A publicidade não desejada, como a panfletagem, os carros de som e outros, é tão intrusiva e irritante quanto o envio de mensagens não solicitadas via Internet, mas o fato de não conseguirmos reduzir ou até acabar com este tipo de irritação não é prerrogativa para a existência do spam. Se já somos bombardeados por tanta propaganda indesejável, será que é realmente necessário aumentar o alcance deste arsenal?
