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P2 X P2P – Cultura Digital e Movimento Social

Tanto nas manifestações anteriores contra o aumento da passagem de ônibus, quanto em outros protestos que sofreram uma reposta violenta da Polícia Militar em Florianópolis, uma ação dos manifestantes sempre me chamava a atenção: quando eles agarravam os portadores de câmeras fotográficas e filmadoras e colocavam entre eles e a Polícia. Sempre aos gritos de “grava, grava”.

Geralmente as pessoas que serviam de “escudo midiático” eram repórteres ligados à imprensa sindical ou vindos de iniciativas de mídia independente e comunitária. Ou seja: a não comercial, já que não são raras as vezes em que um jornalista vai até a manifestação, grava tudo, faz entrevistas, e não é publicada uma única linha.

Esse “sumiço” da pauta não se deve, necessariamente, ao pobre jornalista ou até mesmo aos seus editores. É, geralmente, influência do dono do veículo de comunicação, que por sua vez atendeu a um pedido de um anunciante, seja empresa ou governo. Mas é claro que até aí já é especulação de quem já bancou o escudo midiático um dia.

O fato é que esta postura dos manifestantes mudou um pouco. Eles continuam requisitando que os portadores de equipamentos profissionais registrem os abusos de autoridade, mas isso ao mesmo tempo em que estão gravando com suas próprias câmeras e celulares.

Com a popularização das câmeras digitais e dos celulares com filmadoras embutidas, a tarefa, privilégio ou diversão de gravar cenas de conflitos não é mais ofício exclusivo dos jornalistas profissionais ou militantes. É também dos próprios manifestantes, das pessoas que ficam mais distante, observando o “espetáculo” e, inclusive, da Polícia, que passou a empunhar câmeras filmadoras para registrar os líderes do protesto, gerando material para possíveis processos judiciais. Isso tudo além do uso de equipamentos mais discretos pelos onipresentes P2 (Policiais a paisana), que, infiltrados no meio das manifestações, gravam e transmitem em tempo real informações para os colegas.

O estágio da captação de dados, sons e imagens parece estar bem resolvido tanto para a imprensa e para a polícia, quanto para a população – seja a parte dela que se manifesta, seja a que fica olhando da calçada. A grande questão é o uso que cada uma dessas partes faz do conteúdo gravado.

Enquanto a polícia e a imprensa comercial possuem claros parâmetros e definições do que fazer com as informações, os manifestantes ainda estão experimentando todo o potencial midiático proporcionado pela Cultura Digital em suas mãos.

Entende-se por “cultura digital” toda a relação humana mediada por dispositivos digitais. Com o advento das novas tecnologias e a proliferação das redes P2P (Peer-to-Peer, do inglês: par-a-par), sistemas de distribuição de arquivos, repositórios de mídias na internet, além da facilidade de divulgação que os blogs e as redes sociais como twitter e orkut proporcionam, tanto a denúncia quando a organização dos movimentos sociais potencializou-se em escala global.

No youtube existem mais de 100 vídeos postados por cidadãos, sobre as recentes manifestações contra o aumento da tarifa do transporte coletivo em Florianópolis (somente o vídeo do SARCASTiCOcomBR do início das manifestações passou de 600 visualizações).

O Blog da Frente de Luta pelo Transporte Público de Florianópolis, coletivo que está “puxando” os atos, já passou de 10.000 visitas. Além de inúmeras fotografias publicadas no Flickr, existem várias comunidades no orkut e blogs participantes de uma cobertura colaborativa e descentralizada, mas com poucos links ou tags em comum, fator que prejudica a visibilidade manifestações nos sites de busca na web. Mais uma mostra de quanto os movimentos sociais brasileiros ainda são “novos” na rede.

Hacktivismo e Recombinação

Além da publicação dos conteúdos, existem outras formas de ativismo voltados para a própria rede em ações individuais, que podem resultar em grande mobilizações, como a iniciativa do Consultor de TI, Paulo Geyer, que decidiu usar o seu computador e telefone para protestar.

Paulo começou a fazer uma série de posts em seu blog, com as mensagens de e-mail enviadas para a Corregedoria Geral da Justiça e Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal a respeito dos abusos da Polícia Militar durante as manifestações. Paulo também publicou as respostas, ou melhor, a falta delas, evidenciando o descaso dos órgãos públicos com as denúncias de violação de direitos humanos.

“Muito se fala em manifestação e ir para as ruas, mas há algo muito útil para se fazer de casa mesmo: ligações, e encher caixas de correio” explica o blogueiro, ao divulgar telefones e endereços eletrônicos das autoridades.

Além de blogar, Geyer também passou algumas horas editando um artigo na Wikipedia sobre as manifestações:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manifestos_contra_o_aumento_da_tarifa_em_Florian%C3%B3polis_em_2010 , que está prestes a ser “deletado” da enciclopédia virtual em função dos critérios questionáveis da comunidade Lusófona, que avalia os conteúdos publicado no site.

Assim como Paulo Geyer, outros cidadãos e cidadãs estão usando a rede para expressar as suas opiniões sobre os acontecimentos, seja blogando e fazendo paródias, seja compartilhando arquivos para recombinar produções e utopias.

Toda esta movimentação na WEB faz com que se fure tanto a omissão da imprensa comercial quanto a repressão dos governos e empresas. O que é mais do que o suficiente para que tentativas de controle da Internet, como a Lei Azeredo, o chamado “AI5 Digital”, e o ACTA (Acordo Comercial Anti-Falsificação) se proliferem.

Manter a rede livre e torná-la universal, em breve se tornará a militância de todas as militâncias.

 
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