Texto publicado originalmente no Butuca Ligada
Amigos, estamos vivenciando talvez a maior discussão nascida na internet e trazida para o campo do real, envolvendo jornalismo, internet, política e todos nós, a sociedade: o blog da Petrobras.
Parêntese: Vou supor que meus leitores já conheçam a história. Quem não souber, recomendo a leitura do post Jornalismo, informação, ética e a Petrobras, do blog Bereteando. Muito bem escrito, resume tudo que aconteceu, procura trazer todos os pontos de vista sobre o tema e ainda faz uma análise muito pertinente da celeuma.
Depois de quase uma semana do nascimento do blog e de uma repercussão extremamente polêmica, faço aqui alguns comentários que, espero, contribuam humildemente para o debate:
1) Ninguém discorda que a iniciativa da Petrobras é uma nova e saudável forma de comunicação com o público, né? Esclarece pontos obscuros das notícias, ao divulgar os diálogos com a imprensa, e ainda economiza uma grana com notas oficiais pagas em jornais
Aliás, sobre a decisão de publicar os diálogos antes da divulgação na imprensa, achei provocativa e interessante.
2) Provocativa porque é óbvio que a Petrobras sabia que a imprensa ia chiar. Ou seja, a polêmica foi premeditada. Aí, realmente, não sei se foi a melhor (nem a pior) decisão. Poderia a empresa divulgar os diálogos depois da publicação das matérias? Sim, e o blog continuaria sendo uma iniciativa bem legal. Mas a opção foi pela compra da briga.
3) Interessante porque isso nunca ocorreu antes. Não me lembro de ter ouvido falar em “sigilo da imprensa”, só em “sigilo da fonte”. É natural que uma pessoa não queira se identificar caso uma informação que ela divulgue possa comprometê-la. Mas não faz muito sentido que o jornal queira permanecer “anônimo” ou manter secreta a sua investigação. A menos que… o veículo queira dar um furo, uma informação exclusiva.
Mas, furo? Numa época em que os jornais chegam com as mesmas notícias já divulgadas na TV e na internet horas antes? Ok, TV e internet também podem fazer reportagens investigativas, que podem trazer informações exclusivas muito interessantes. Mas será que essa informação exclusiva vai vir exatamente de uma entrevista com a fonte oficial?
Ou seja, não vejo falta de ética, como quer fazer parecer a Associação Nacional de Jornais. Talvez uma “deselegância” com a imprensa.
A verdade é que a Petrobras simplesmente expôs para todos nós uma quebra paradigmática, o surgimento de uma questão que antes não existia: agora, o entrevistado/fonte também tem como publicar as perguntas que vão gerar uma matéria que se tornará pública. E agora? Nunca ninguém pensou nessa possibilidade antes.
Esta dúvida é somente mais um indício de que a imprensa precisa urgentemente enxergar que o século 21 já está rolando. E olha que a primeira década dele já está no fim…
4) Não julgo a Petrobras por essa decisão. Prefiro saudar a iniciativa do blog, que pode ser um marco na relação entre imprensa e empresas, pelo menos aqui no Brasil. Como se trata de uma das maiores organizações do Brasil, senão a maior, a chegada do veículo acabou sendo impactante e polêmica.
5) Por fim, o blog da Petrobras deve ser visto como um avanço para a democracia. De um lado, temos a investigação da imprensa. Do outro, o posicionamento da empresa diante dessa investigação. Agora, o leitor poderá confrontar as informações de uma e de outra. Ele terá o acesso às duas versões. Isto, sim, é pluralidade de pontos de vista, fundamental para que o cidadão tenha mais subsídios para formar a sua própria opinião.
Devemos, portanto, evitar a tentação de reduzir o conflito a uma briga entre mocinho e bandido. O blog da Petrobras é capaz de revelar problemas no atual processo de produção da notícia (pra não falar em falhas orquestradas por interesses mais escusos). Ponto pra ela. Mas isso não isenta a estatal – e a nenhuma empresa que lance mão da mesma estratégia – de ser cobrada.
A imprensa precisa continuar exercendo seu papel, de buscar sempre explicações sobre qualquer ponto que não esteja claro para o cidadão. Deve esquecer a vaidade do “furo”, e preocupar-se em investigar. Não é a publicação prévia de perguntas que vai anular uma reportagem boa e reveladora. Quando o processo investigativo for eficiente e os dados forem incontestáveis, nenhum blog corporativo vai poder dissimular ou evitar a revelação da verdade.
O mais importante, agora, é o leitor poder comparar as informações. Melhor para todos nós.
P.S. Mandei uma mensagem no domingo para o blog, conforme combinado com seus autores, com questionamentos sobre a iniciativa, mas não obtive respostas até agora (noite de terça, 9). Darei mais alguns dias, e só então publicarei as perguntas. Com ou sem respostas.
Atualização (19:42 de 20/06/2009): seguem as perguntas que enviei ao blog em 7 de junho, infelizmente não respondidas pelo blog Fatos e Dados:
1) Qual o nome da pessoa ou do setor da Petrobras responsável pelo blog?
2) Por que o blog é mantido fora do domínio da Petrobras? Não dá um ar “não-oficial” ao blog?
3) O blog informa que seu objetivo é “apresentar fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à CPI”. Vocês poderiam ter usado o próprio site para isso, sem usar a ferramenta blog. Por que preferiram criar um blog?
4) Segundo matéria publicada no Globo Online, “a Petrobras explicou que o objetivo do blog é tornar mais transparente as informações divulgadas pela companhia. A estatal destacou que, com o blog, os leitores têm condições não apenas de conhecer as perguntas feitas pelos jornalistas, mas principalmente ter acesso às respostas da estatal, na íntegra. Com isso, a companhia diz pretender dar mais transparência às informações da empresa, inclusive às concedidas aos veículos de comunicação”.
Vocês achavam que a imprensa nunca esclarecia as informações sobre a Petrobras? Se sim, por quê? Por má-fé, por incompetência ou por um “gargalo” no processo tradicional de produção da notícia?
5) A Petrobras pretende manter o blog após a CPI? Percebem-se alguns posts que não estão relacionados diretamente à Comissão.
6) Se na internet a repercussão foi saudada, a repercussão na grande imprensa foi mais cética. O Globo questionou a contratação da CdN mesmo com 1.150 profissionais de comunicação na empresa, além de afirmar que a estatal “está montando diversos esquemas para se defender”. O Estado de S.Paulo afirma que, junto com o Globo, questionou “a legalidade do ato e se houve pedido de autorização para publicação dos e-mails” . Já a Folha de S.Paulo diz que a Petrobras usa o blog para vazar reportagens e publica a declaração de um advogado que acha que a empresa está sendo “deselegante” com os jornais.
Esta reação já era esperada? A Petrobras acredita que este tipo de reação pode prejudicar a relação entre a empresa e a imprensa?
7) A Petrobras estuda novos mecanismos de comunicação direta com o público, sem a intermediação da imprensa?