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Antonio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994)

Texto publicado originalmente no Butuca Ligada

Antonio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994)

Na quarta-feira, 29 de julho, os twitteiros brasileiros emplacaram um trending topic (os assuntos mais comentados no sistema num determinado momento): o #mussumday, em homenagem aos 15 anos de morte do famoso humorista. Durante o dia inteiro, os twitteiros reverenciaram Antonio Carlos Bernardes Gomes, bravo mangueirense e meu ex-vizinho em Jacarepaguá, relembrando piadas, fazendo brincadeiras com o “jeitis” de falar de Mussum e escrevendo qualquer coisa que lembrasse o trapalhão.

O sucesso da iniciativa me chamou a atenção em dois aspectos. Primeiro, que o assunto chegou bem mais depressa aos trending topics (inclusive no primeiro lugar, em determinados momentos) do que o já famoso #forasarney. Atribuo esta rapidez à autenticidade das homenagens ao Mussum. Todos que participaram resolveram fazê-lo mesmo sem pedidos de adesão. Por outro lado, o #forasarney, por ser um movimento – pretensamente – político, dividiu opiniões neste Fla-Flu que é a internet. Além disso, foi artificial, uma vez que havia solicitações de participação, o que ajudou a aumentar a desconfiança.

O outro aspecto se conecta diretamente com uma frase que ouvi do ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, no dia 14 de julho, no fórum sobre mídias sociais. Segundo ele, a internet quebrou o monopólio da imprensa em determinar sobre o que a sociedade deve discutir, tema-chave da hipótese da agenda setting. Franklin tem razão: embora a mídia continue pautando a sociedade, ela não é mais a única a fazê-lo. E o #mussumday é um exemplo bem evidente.

Nas redes sociais, com exceção do tema tecnologia e das fofocas limitadas à blogosfera, praticamente todos os assuntos são pautados pela mídia (e aqui, quando falo mídia, falo da imprensa e também da megaindústria do entretenimento): um filme que vai ser lançado, a celebridade que fez alguma merda, alguma notícia de seção tipo “Planeta Bizarro”.

Mas nenhum grande veículo de comunicação lembrou os 15 anos de morte do Mussum ou deu muito destaque ao aniversário. Mesmo assim, os usuários do Twitter lembraram, e espontaneamente, fizeram suas singelas, divertidas e até emocionantes homenagens ao humorista. Tenho certeza de que a profusão das mensagens sobre o #mussumday ultrapassou os limites da internet e chegou aos ouvidos de quem estava offline, tamanho o barulho.

O episódio é interessante porque estamos falando de um humorista morto em 1994, ou seja, antes da internet chegar ao Brasil, mas que continua vivo na memória de muitos que se divertiam com as piadas dos Trapalhões (cuja longevidade foi estendida pela própria tecnologia e pelos vídeos antigos disponíveis no YouTube). Ou seja, não é nem um assunto quente. Mesmo assim, o #mussumday mostrou que a internet pode mobilizar até mesmo um grupo heterogêneo e numeroso de pessoas como os usuários do Twitter, a ponto de espalhar tão profundamente um tema não abordado pela comunicação de massa.

E alguém pode perguntar qual o impacto desta mobilização específica do #mussumday para a sociedade. Pouco, talvez nenhum. Foi só uma grande brincadeira. Mas, de tão autêntica e espontânea, virou uma bonita homenagem colaborativa.


Campanha "#forasarney" no Twitter
Campanha “#forasarney” no Twitter

Faz duas ou três semanas que tem rolado no Twitter uma campanha. Acompanhada de mensagens indignadas ou mesmo solitária, a expressão “#forasarney” está sendo incluída nos posts de muita gente na rede social. Parece que os cidadãos estão começando a usar a internet para mobilizações políticas. O potencial do meio para isso é incontestável. Mas tenho minhas dúvidas se esta campanha está sendo tratada com a devida seriedade.

José Sarney já aprontou muito. Apoiou a ditadura militar, estendeu o congelamento de preços durante o Plano Cruzado com fins eleitorais e acabou disparando a inflação, distribuiu concessões de TV e rádio a torto e direito para compadres, tentou censurar blogs. Portanto, qualquer diminuição de poder do senador amapo-maranhense é benéfica para o Brasil. Ainda que tenham descoberto, 40 anos de vida pública depois, quem é José Sarney, a indignação é justa e necessária.

Porém, a maioria dos comentários adjacentes ao “#forasarney” postados no Twitter é vazia. As mensagens, quando não são virulentas ou raivosas, não têm conteúdo algum. Pouquíssimas trazem alguma informação que dê consistência ao mote da campanha.

O motivo essencial dessa inação travestida de mobilização é a caótica avalanche de notícias a que somos submetidos com fontes inesgotáveis de dados, números e manchetes frequentemente mal digeridas e transformadas em gritos em nome da moralidade, sem que se saiba exatamente qual o objeto da revolta. Deseja-se tirar Sarney por sua ligação com os recentes escândalos no Senado? Ou por todo o conjunto da obra? Neste caso, por que ninguém se revoltou quando Sarney foi eleito presidente do Senado? O que se ganha com a destituição de Sarney do cargo? Ou apenas deseja-se Sarney fora da presidência da Câmara Alta do Congresso porque é cool?

Por isso, o #forasarney, em muitos casos, é só uma tentativa oca de manifestar resíduos de uma falsa consciência política. Em outras situações, é apenas um esforço em emplacar a tag nos “trending topics” do Twitter – vide a patetice de algumas subcelebridades que deram à campanha, ridiculamente, o tom de galhofa.

Ao debate, por favor!

A internet já provou ser uma ferramenta fabulosa para a democracia. Ela dá voz, espaço e tempo para que mais atores sociais – de indivíduos a organizações – possam expressar seus pontos de vista. O fomento à discussão, à troca de ideias, ao compartilhamento de informações e à reflexão analítica é um potente combustível para o motor da nossa realidade, rumo a patamares cada vez mais altos de justiça e cidadania. O debate permanente também é uma poderosa arma contra a transformação da mobilização popular em uma acrítica massa de manobra.

Saúdo estes novos indícios da participação política dos cidadãos na internet. Mas ainda fico reticente quando vejo manifestações tão superficiais. Mensagens de 140 caracteres (nos quais já inclusos os onze da expressão “#forasarney”) não são um método eficaz de ativismo político, a menos que sirvam para a disseminação de informações ou agregação de partidários numa luta em comum, para ações mais produtivas.

Participar de movimentos assim pode ser bacana, ajudar na sensação de pertencimento etc. mas a reflexão é fundamental. Sem uma dose de razão, o tom da campanha pode ficar emocional demais. O desequilíbrio descamba para mensagens autoritárias e antidemocráticas, como as que pedem o fechamento do Congresso ou aquelas repletas de palavrões.

Motivos para ter Sarney fora da presidência do Senado não faltam. O importante é identificá-los claramente. A desinformação aumenta o risco de se encampar um movimento a favor de quem prefere a falta de consciência política generalizada. É hora, portanto, de explorar mais o altíssimo potencial da internet para promover a troca de ideias. Quanto maior o debate, mais eficazes, contundentes e honestas serão as campanhas.

P.S. O Meme de Carbono já havia alertado para a necessidade de uma campanha mais informativa e menos desajeitada.


Texto publicado originalmente no Butuca Ligada

Agora que não será mais necessário ter o diploma de jornalista para exercer a profissão, surgem pelo menos duas perguntas:

1) o que acontecerá com os cursos superiores de jornalismo? Haverá estudantes interessados em fazer a faculdade, podendo trabalhar na imprensa apenas com o Ensino Médio? Ainda que o diploma não seja obrigatório, ele poderá ser um diferencial. Uma diminuição da quantidade de candidatos pode, quem sabe, aumentar a qualidade dos cursos. Mas as universidades precisarão investir. A formação e o estudo permanecem fundamentais para a prática jornalística.

2) o que vai acontecer com a qualidade do jornalismo? Não acho que vá mudar muita coisa. Os piores vícios da atividade, hoje, têm mais a ver com estratégias empresariais do que com os recursos humanos – embora estes, claro, sejam decisivos para o nível do jornalismo praticado hoje em dia. Não é à toa que tanta gente comemora a queda da exigência do curso superior.

Porém, também não é extinguindo a obrigatoriedade do diploma que, agora, só entrarão para o mercado baluartes que salvarão o jornalismo da desmoralização. Ao contrário do que pensam os apocalípticos, não haverá um “liberou geral”.

As empresas não contratarão “qualquer um”. As entrevistas, dinâmicas e provas continuarão selecionando de acordo com os mesmos critérios de antes. Só da lista dos documentos necessários para a assinatura do contrato é que o diploma será limado. Portanto, se um historiador, ou sociólogo, ou médico, ou whatever tentar a sorte e mostrar dotes necessários para a prática jornalística, poderá ser aproveitado. Não quer dizer, porém, que será melhor do que um jornalista formado em faculdade.

Por isso que o maior perigo da decisão do STF é criar o mito de que o jornalismo é fácil. Não, não é. Jornalismo é apurar o obscuro, checar os dados, ter cultura geral, criar pautas interessantes, escrever decentemente, contar uma boa história, tecer análises fundamentadas, interpretar os fatos, informar. O profissional pode até não precisar de diploma pra saber tudo isso. Mas deve saber que jornalismo não é pra qualquer um.


Texto publicado originalmente no Butuca Ligada

Amigos, estamos vivenciando talvez a maior discussão nascida na internet e trazida para o campo do real, envolvendo jornalismo, internet, política e todos nós, a sociedade: o blog da Petrobras.

Parêntese: Vou supor que meus leitores já conheçam a história. Quem não souber, recomendo a leitura do post Jornalismo, informação, ética e a Petrobras, do blog Bereteando. Muito bem escrito, resume tudo que aconteceu, procura trazer todos os pontos de vista sobre o tema e ainda faz uma análise muito pertinente da celeuma.

Depois de quase uma semana do nascimento do blog e de uma repercussão extremamente polêmica, faço aqui alguns comentários que, espero, contribuam humildemente para o debate:

1) Ninguém discorda que a iniciativa da Petrobras é uma nova e saudável forma de comunicação com o público, né? Esclarece pontos obscuros das notícias, ao divulgar os diálogos com a imprensa, e ainda economiza uma grana com notas oficiais pagas em jornais :)

Aliás, sobre a decisão de publicar os diálogos antes da divulgação na imprensa, achei provocativa e interessante.

2) Provocativa porque é óbvio que a Petrobras sabia que a imprensa ia chiar. Ou seja, a polêmica foi premeditada. Aí, realmente, não sei se foi a melhor (nem a pior) decisão. Poderia a empresa divulgar os diálogos depois da publicação das matérias? Sim, e o blog continuaria sendo uma iniciativa bem legal. Mas a opção foi pela compra da briga.

3) Interessante porque isso nunca ocorreu antes. Não me lembro de ter ouvido falar em “sigilo da imprensa”, só em “sigilo da fonte”. É natural que uma pessoa não queira se identificar caso uma informação que ela divulgue possa comprometê-la. Mas não faz muito sentido que o jornal queira permanecer “anônimo” ou manter secreta a sua investigação. A menos que… o veículo queira dar um furo, uma informação exclusiva.

Mas, furo? Numa época em que os jornais chegam com as mesmas notícias já divulgadas na TV e na internet horas antes? Ok, TV e internet também podem fazer reportagens investigativas, que podem trazer informações exclusivas muito interessantes. Mas será que essa informação exclusiva vai vir exatamente de uma entrevista com a fonte oficial?

Ou seja, não vejo falta de ética, como quer fazer parecer a Associação Nacional de Jornais. Talvez uma “deselegância” com a imprensa.

A verdade é que a Petrobras simplesmente expôs para todos nós uma quebra paradigmática, o surgimento de uma questão que antes não existia: agora, o entrevistado/fonte também tem como publicar as perguntas que vão gerar uma matéria que se tornará pública. E agora? Nunca ninguém pensou nessa possibilidade antes.

Esta dúvida é somente mais um indício de que a imprensa precisa urgentemente enxergar que o século 21 já está rolando. E olha que a primeira década dele já está no fim…

4) Não julgo a Petrobras por essa decisão. Prefiro saudar a iniciativa do blog, que pode ser um marco na relação entre imprensa e empresas, pelo menos aqui no Brasil. Como se trata de uma das maiores organizações do Brasil, senão a maior, a chegada do veículo acabou sendo impactante e polêmica.

5) Por fim, o blog da Petrobras deve ser visto como um avanço para a democracia. De um lado, temos a investigação da imprensa. Do outro, o posicionamento da empresa diante dessa investigação. Agora, o leitor poderá confrontar as informações de uma e de outra. Ele terá o acesso às duas versões. Isto, sim, é pluralidade de pontos de vista, fundamental para que o cidadão tenha mais subsídios para formar a sua própria opinião.

Devemos, portanto, evitar a tentação de reduzir o conflito a uma briga entre mocinho e bandido. O blog da Petrobras é capaz de revelar problemas no atual processo de produção da notícia (pra não falar em falhas orquestradas por interesses mais escusos). Ponto pra ela. Mas isso não isenta a estatal – e a nenhuma empresa que lance mão da mesma estratégia – de ser cobrada.

A imprensa precisa continuar exercendo seu papel, de buscar sempre explicações sobre qualquer ponto que não esteja claro para o cidadão. Deve esquecer a vaidade do “furo”, e preocupar-se em investigar. Não é a publicação prévia de perguntas que vai anular uma reportagem boa e reveladora. Quando o processo investigativo for eficiente e os dados forem incontestáveis, nenhum blog corporativo vai poder dissimular ou evitar a revelação da verdade.

O mais importante, agora, é o leitor poder comparar as informações. Melhor para todos nós.

P.S. Mandei uma mensagem no domingo para o blog, conforme combinado com seus autores, com questionamentos sobre a iniciativa, mas não obtive respostas até agora (noite de terça, 9). Darei mais alguns dias, e só então publicarei as perguntas. Com ou sem respostas.

Atualização (19:42 de 20/06/2009): seguem as perguntas que enviei ao blog em 7 de junho, infelizmente não respondidas pelo blog Fatos e Dados:

1) Qual o nome da pessoa ou do setor da Petrobras responsável pelo blog?

2) Por que o blog é mantido fora do domínio da Petrobras? Não dá um ar “não-oficial” ao blog?

3) O blog informa que seu objetivo é “apresentar fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à CPI”. Vocês poderiam ter usado o próprio site para isso, sem usar a ferramenta blog. Por que preferiram criar um blog?

4) Segundo matéria publicada no Globo Online, “a Petrobras explicou que o objetivo do blog é tornar mais transparente as informações divulgadas pela companhia. A estatal destacou que, com o blog, os leitores têm condições não apenas de conhecer as perguntas feitas pelos jornalistas, mas principalmente ter acesso às respostas da estatal, na íntegra. Com isso, a companhia diz pretender dar mais transparência às informações da empresa, inclusive às concedidas aos veículos de comunicação”.

Vocês achavam que a imprensa nunca esclarecia as informações sobre a Petrobras? Se sim, por quê? Por má-fé, por incompetência ou por um “gargalo” no processo tradicional de produção da notícia?

5) A Petrobras pretende manter o blog após a CPI? Percebem-se alguns posts que não estão relacionados diretamente à Comissão.

6) Se na internet a repercussão foi saudada, a repercussão na grande imprensa foi mais cética. O Globo questionou a contratação da CdN mesmo com 1.150 profissionais de comunicação na empresa, além de afirmar que a estatal “está montando diversos esquemas para se defender”. O Estado de S.Paulo afirma que, junto com o Globo, questionou “a legalidade do ato e se houve pedido de autorização para publicação dos e-mails” . Já a Folha de S.Paulo diz que a Petrobras usa o blog para vazar reportagens e publica a declaração de um advogado que acha que a empresa está sendo “deselegante” com os jornais.

Esta reação já era esperada? A Petrobras acredita que este tipo de reação pode prejudicar a relação entre a empresa e a imprensa?

7) A Petrobras estuda novos mecanismos de comunicação direta com o público, sem a intermediação da imprensa?


Jornais no Irã. Foto: birdfarm
Jornais no Irã. Foto: birdfarm

No sábado, travei o seguinte diálogo com meu amigo Gustavo Veronese:

Gustavo: Perreco

tudo beleza?

me: beleza, e aí?

Gustavo: Aí

dá uma olhada na página 4 do Globo, na coluna do Merval e vê a chamada da coluna dele (não sei se é assim que vocês chamam a introdução da coluna)

Vê o que você acha.

me: pô, não tenho o Globo %-)

Gustavo: tu só lê o JB ?

me: não, não leio jornal :-)

só online e o Globo de sexta, quando compro pra ver a boa do fim de semana

O papo prosseguiu, por outro caminho. Mas eu fiquei encasquetado com essa novidade: eu não leio mais jornais. A conclusão me levou a fazer um revival da minha relação com os impressos.

Na faculdade de jornalismo, ouvia nas minhas melhores aulas que jornalista tem que estar bem informado e ler jornal. Seguir a orientação nunca foi muito difícil, mesmo antes de passar no vestibular. Quando eu morava com os meus pais, lia em casa porque minha mãe sempre assinava o Globo. Durante a faculdade, cheguei a assinar a Folha e o JB. Ao sair de casa e ver as despesas aumentarem, nunca mais assinei nada. Porém, ainda curtia ler os jornais no meu trabalho antigo. Como agora não tenho jornais à minha disposição na minha sala atual, a preguiça e avareza superam a minha vontade em me informar pelos tradicionais diários impressos.

Já faz, portanto, quase um ano que ler jornais deixou de ser um hábito diário. Mas escrever isso na conversa com o Gustavo me fez encarar a verdade. Uma verdade que se contrapõe ao que aprendi na sala de aula. Afinal, como jornalista, é preciso saber um pouco de tudo para errar o mínimo possível na hora de transmitir uma informação. Mas esta necessidade não mudou. Então, por que então abro mão dos jornais?

Pensei e encontrei dois motivos, um particular e um público. O particular é a redução vertiginosa da grandeza “tempo” no meu dia a dia. Quando sobram alguns minutos para a leitura, prefiro dedicá-la aos livros, pois, como vocês sabem, estou em débito com a literatura.

O público é notório. A internet nos expõe a milhares de fontes de informação diferentes. Não tenho acesso somente ao que a imprensa noticia, mas também às opiniões e informações vindas de quem nunca ou raramente teve espaço na mídia. Além disso, milhares de veículos informativos gratuitos proliferam na rede, inclusive internacionais. E na rede que eu mantenho, via internet ou fora dela, consigo me manter informado sobre os assuntos que mais me interessam, lúdica ou profissionalmente. Afinal, meus amigos, colegas e contatos são meus amigos, colegas e contatos porque se interessam pelas mesmas coisas que eu. Mesmo nessa entropia enlouquecedora em que vivemos, é mais ou menos o que fala o Cris Dias: “se alguma informação, notícia, tendência, etc. é realmente importante ela acaba voltando” (não penso 100% igual, mas concordo mais do que discordo). Logo, deixar de ler jornais não me deixou mais mal informado. Se bobear, ocorre o contrário.

Portanto, acho que é hora de abandonar o sentimento de culpa. E de rever meus conceitos sobre as previsões do tipo “os jornais vão acabar”, embora eu ainda não concorde com elas. Acompanho a grande mídia, mas é inegável que ela deve se reinventar para anular ou diminuir os prejuízos recentes. Aceitar o avanço tecnológico é uma providência fundamental e já atrasada. Se o veículo ignora a participação do leitor, minimiza a formação de seus profissionais e despreza critérios de qualidade básicos, é porque busca o suicídio. Afinal, com internet ou não, a sociedade está cada vez mais exigente com o compromisso público da imprensa com a democracia e a pluralidade.

Agora, é possível que o fim do jornal de papel seja um destino mais realista. Já que caminhamos para um acesso cada vez mais amplo à web, os próprios veículos prefiram manter-se só na internet. Na web, a manutenção é mais barata e os recursos multimídia enriquecem a transmissão da informação. A conscientização ecológica também vai contribuir para a redução do papel. O que desacelera a força que empurra as rotativas à aposentadoria é o já tradicional gargalo: como aumentar a receita com o veículo online? Propaganda? Conteúdo pago? Micropagamento?

O desaparecimento do jornal de papel não vai representar o fim da grande mídia. Poderá ser um símbolo, sim, de uma nova era da informação. Mas os grandes veículos de comunicação podem dançar, caso não consigam se adequar aos novos tempos. Ao que parece, estão atrasados.

Com a internet, há espaço para todos. Inclusive para os jornais.


Vocês se lembram da confusão que foi a regulação da internet durante a campanha eleitoral municipal de 2008?

Em março de 2008, o TSE definiu que o uso da internet na campanha só poderia ser feito pelo site do candidato e ponto. Não falava nada de blogs, redes ou similares. Ao mesmo tempo, o órgão ameaçou de cassação os candidatos que burlassem a lei. A falta de clareza, óbvio, causou confusão. Pedro Doria, por exemplo, teve que tirar de seu blog um selo de apoio a Fernando Gabeira, postulante ao cargo de prefeito do Rio, porque a Justiça Eleitoral entendeu que era campanha, ainda que Doria não fizesse parte da equipe do Partido Verde, legenda do candidato. Em seguida, atendendo a consulta de um deputado, o TSE confirmou as regras (ou a falta delas) sobre o uso da internet na campanha, frisando que cada caso seria um caso. A omissão criou algumas incoerências no Brasil todo: enquanto o TRE do Rio de Janeiro soltou resolução liberando a campanha em blogs e Orkut, tendo proibido – sabiamente – o envio de spams e torpedos não solicitados, Minas Gerais multou candidatos que usaram o Orkut para promover candidaturas, e os estados do Ceará e do Rio Grande do Sul foram mais flexíveis em suas decisões. O caos na rede chegou a tal ponto que sites de jornais e revistas podiam opinar sobre eleições, mas veículos que só existiam na internet eram proibidos de fazê-lo.

Em resumo, as duas questões que geraram maior dúvida nesta confusão toda foram: (1) o que pode ser considerado campanha e o que não pode? (2) o que pode ser feito na internet e o que não pode? A discussão sobre ambas as perguntas passa por um elemento que faz toda a diferença: a data que marca o início oficial da campanha eleitoral, com todos os candidatos já conhecidos e definidos pelos partidos e coligações. Ou seja, qualquer propaganda feita antes de 6 de julho de um ano eleitoral é considerada ilegal. Pois hoje, a menos de 20 meses para a próxima eleição presidencial, o debate sobre o que é permitido ou não na internet precisa esquentar.

A reportagem Campanha para presidente começa na internet, da Folha Online, já lista sites, comunidades no Orkut e vídeos no YouTube que apoiam os possíveis principais candidatos ao cargo máximo do governo federal. São, provavelmente, espaços montados por fãs, eleitores e correligionários, sem ligação nenhuma com os partidos políticos.

Estes, aliás, para enfatizar que desejam distância dos sites e de qualquer insinuação de que fazem campanha fora do prazo, sequer se pronunciaram sobre o tema na matéria da Folha Online. O medo se justifica, pois, com regras confusas, ninguém quer dar a chance de ser multado ou prejudicar uma possível candidatura.

O que, então, o Tribunal Superior Eleitoral pensa disso? Tentei entrar em contato com o órgão, mas o site informa que é preciso procurar o Tribunal Regional Eleitoral do meu Estado. Entrei em contato com o TRE-RJ em 13 de fevereiro, uma sexta-feira, e obtive as respostas já na segunda-feira seguinte, 16. Troquei, então, mensagens com a assessoria do TRE-RJ ao longo desse dia. Montei, em um formato de entrevista, um resumo dessa conversa via internet com o Tribunal.

Veja a entrevista.


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Texto publicado originalmente no Butuca Ligada

Depois de quase vinte anos de luta, as entidades civis de direito à comunicação conseguiram. O governo marcou para o dia 2 de dezembro de 2009 a realização da I Conferência Nacional de Comunicação, com participação ampla dos setores da sociedade pra discutir temas importantíssimos como crescimento da internet e das novas mídias, concessão da radiodifusão, propriedade cruzada dos meios de comunicação, fortalecimento da imprensa regional e concentração de veículos na mão de um mesmo grupo. Mexer nesse vespeiro vai chamar gente pra briga, mas o confronto é essencial para avançarmos na democratização da comunicação no Brasil.

Antes de dezembro, etapas municipais da Conferência serão realizadas até 22 de junho, e as estaduais, entre 30 de junho e 15 de setembro. Para o evento nacional, falta apenas uma oficialização do governo.

E como a nossa brava Folha de S. Paulo nomeia o título da notícia sobre o assunto?

União prevê R$ 8,2 mi para debater comunicação social no país

A análise desse título não exige muito raciocínio. A escolha da informação do – possível – custo do evento revela a importância dada pela Folha, um veículo de comunicação, à Conferência Nacional de Comunicação. A forma de redação da finalidade da despesa  (”para debater comunicação social no país”) também sugere uma certa irrelevância do tema.

Ok, podemos até questionar a magnitude do valor de R$ 8,2 milhões. Porém, depois de tanto tempo sem se discutir abertamente a caixa-preta da comunicação no Brasil, a prévia alocação (e não aplicação!) dos recursos é realmente mais importante do que a realização da Conferência em si?

Estejam certos de que vem mais por aí.


Ministério da Cultura e RNP