Eu não leio mais jornais
07/06/2009 - postado por Raphael Perret Leal
No sábado, travei o seguinte diálogo com meu amigo Gustavo Veronese:
Gustavo: Perreco
tudo beleza?
me: beleza, e aÃ?
Gustavo: AÃ
dá uma olhada na página 4 do Globo, na coluna do Merval e vê a chamada da coluna dele (não sei se é assim que vocês chamam a introdução da coluna)
Vê o que você acha.
me: pô, não tenho o Globo %-)
Gustavo: tu só lê o JB ?
me: não, não leio jornal
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só online e o Globo de sexta, quando compro pra ver a boa do fim de semana
O papo prosseguiu, por outro caminho. Mas eu fiquei encasquetado com essa novidade: eu não leio mais jornais. A conclusão me levou a fazer um revival da minha relação com os impressos.
Na faculdade de jornalismo, ouvia nas minhas melhores aulas que jornalista tem que estar bem informado e ler jornal. Seguir a orientação nunca foi muito difÃcil, mesmo antes de passar no vestibular. Quando eu morava com os meus pais, lia em casa porque minha mãe sempre assinava o Globo. Durante a faculdade, cheguei a assinar a Folha e o JB. Ao sair de casa e ver as despesas aumentarem, nunca mais assinei nada. Porém, ainda curtia ler os jornais no meu trabalho antigo. Como agora não tenho jornais à minha disposição na minha sala atual, a preguiça e avareza superam a minha vontade em me informar pelos tradicionais diários impressos.
Já faz, portanto, quase um ano que ler jornais deixou de ser um hábito diário. Mas escrever isso na conversa com o Gustavo me fez encarar a verdade. Uma verdade que se contrapõe ao que aprendi na sala de aula. Afinal, como jornalista, é preciso saber um pouco de tudo para errar o mÃnimo possÃvel na hora de transmitir uma informação. Mas esta necessidade não mudou. Então, por que então abro mão dos jornais?
Pensei e encontrei dois motivos, um particular e um público. O particular é a redução vertiginosa da grandeza “tempo” no meu dia a dia. Quando sobram alguns minutos para a leitura, prefiro dedicá-la aos livros, pois, como vocês sabem, estou em débito com a literatura.
O público é notório. A internet nos expõe a milhares de fontes de informação diferentes. Não tenho acesso somente ao que a imprensa noticia, mas também à s opiniões e informações vindas de quem nunca ou raramente teve espaço na mÃdia. Além disso, milhares de veÃculos informativos gratuitos proliferam na rede, inclusive internacionais. E na rede que eu mantenho, via internet ou fora dela, consigo me manter informado sobre os assuntos que mais me interessam, lúdica ou profissionalmente. Afinal, meus amigos, colegas e contatos são meus amigos, colegas e contatos porque se interessam pelas mesmas coisas que eu. Mesmo nessa entropia enlouquecedora em que vivemos, é mais ou menos o que fala o Cris Dias: “se alguma informação, notÃcia, tendência, etc. é realmente importante ela acaba voltando” (não penso 100% igual, mas concordo mais do que discordo). Logo, deixar de ler jornais não me deixou mais mal informado. Se bobear, ocorre o contrário.
Portanto, acho que é hora de abandonar o sentimento de culpa. E de rever meus conceitos sobre as previsões do tipo “os jornais vão acabar”, embora eu ainda não concorde com elas. Acompanho a grande mÃdia, mas é inegável que ela deve se reinventar para anular ou diminuir os prejuÃzos recentes. Aceitar o avanço tecnológico é uma providência fundamental e já atrasada. Se o veÃculo ignora a participação do leitor, minimiza a formação de seus profissionais e despreza critérios de qualidade básicos, é porque busca o suicÃdio. Afinal, com internet ou não, a sociedade está cada vez mais exigente com o compromisso público da imprensa com a democracia e a pluralidade.
Agora, é possÃvel que o fim do jornal de papel seja um destino mais realista. Já que caminhamos para um acesso cada vez mais amplo à web, os próprios veÃculos prefiram manter-se só na internet. Na web, a manutenção é mais barata e os recursos multimÃdia enriquecem a transmissão da informação. A conscientização ecológica também vai contribuir para a redução do papel. O que desacelera a força que empurra as rotativas à aposentadoria é o já tradicional gargalo: como aumentar a receita com o veÃculo online? Propaganda? Conteúdo pago? Micropagamento?
O desaparecimento do jornal de papel não vai representar o fim da grande mÃdia. Poderá ser um sÃmbolo, sim, de uma nova era da informação. Mas os grandes veÃculos de comunicação podem dançar, caso não consigam se adequar aos novos tempos. Ao que parece, estão atrasados.
Com a internet, há espaço para todos. Inclusive para os jornais.

