Minhas restrições ao “fora, sarney”
07/07/2009 - postado por Raphael Perret Leal
Faz duas ou três semanas que tem rolado no Twitter uma campanha. Acompanhada de mensagens indignadas ou mesmo solitária, a expressão “#forasarney” está sendo incluÃda nos posts de muita gente na rede social. Parece que os cidadãos estão começando a usar a internet para mobilizações polÃticas. O potencial do meio para isso é incontestável. Mas tenho minhas dúvidas se esta campanha está sendo tratada com a devida seriedade.
José Sarney já aprontou muito. Apoiou a ditadura militar, estendeu o congelamento de preços durante o Plano Cruzado com fins eleitorais e acabou disparando a inflação, distribuiu concessões de TV e rádio a torto e direito para compadres, tentou censurar blogs. Portanto, qualquer diminuição de poder do senador amapo-maranhense é benéfica para o Brasil. Ainda que tenham descoberto, 40 anos de vida pública depois, quem é José Sarney, a indignação é justa e necessária.
Porém, a maioria dos comentários adjacentes ao “#forasarney” postados no Twitter é vazia. As mensagens, quando não são virulentas ou raivosas, não têm conteúdo algum. PouquÃssimas trazem alguma informação que dê consistência ao mote da campanha.
O motivo essencial dessa inação travestida de mobilização é a caótica avalanche de notÃcias a que somos submetidos com fontes inesgotáveis de dados, números e manchetes frequentemente mal digeridas e transformadas em gritos em nome da moralidade, sem que se saiba exatamente qual o objeto da revolta. Deseja-se tirar Sarney por sua ligação com os recentes escândalos no Senado? Ou por todo o conjunto da obra? Neste caso, por que ninguém se revoltou quando Sarney foi eleito presidente do Senado? O que se ganha com a destituição de Sarney do cargo? Ou apenas deseja-se Sarney fora da presidência da Câmara Alta do Congresso porque é cool?
Por isso, o #forasarney, em muitos casos, é só uma tentativa oca de manifestar resÃduos de uma falsa consciência polÃtica. Em outras situações, é apenas um esforço em emplacar a tag nos “trending topics” do Twitter – vide a patetice de algumas subcelebridades que deram à campanha, ridiculamente, o tom de galhofa.
Ao debate, por favor!
A internet já provou ser uma ferramenta fabulosa para a democracia. Ela dá voz, espaço e tempo para que mais atores sociais – de indivÃduos a organizações – possam expressar seus pontos de vista. O fomento à discussão, à troca de ideias, ao compartilhamento de informações e à reflexão analÃtica é um potente combustÃvel para o motor da nossa realidade, rumo a patamares cada vez mais altos de justiça e cidadania. O debate permanente também é uma poderosa arma contra a transformação da mobilização popular em uma acrÃtica massa de manobra.
Saúdo estes novos indÃcios da participação polÃtica dos cidadãos na internet. Mas ainda fico reticente quando vejo manifestações tão superficiais. Mensagens de 140 caracteres (nos quais já inclusos os onze da expressão “#forasarney”) não são um método eficaz de ativismo polÃtico, a menos que sirvam para a disseminação de informações ou agregação de partidários numa luta em comum, para ações mais produtivas.
Participar de movimentos assim pode ser bacana, ajudar na sensação de pertencimento etc. mas a reflexão é fundamental. Sem uma dose de razão, o tom da campanha pode ficar emocional demais. O desequilÃbrio descamba para mensagens autoritárias e antidemocráticas, como as que pedem o fechamento do Congresso ou aquelas repletas de palavrões.
Motivos para ter Sarney fora da presidência do Senado não faltam. O importante é identificá-los claramente. A desinformação aumenta o risco de se encampar um movimento a favor de quem prefere a falta de consciência polÃtica generalizada. É hora, portanto, de explorar mais o altÃssimo potencial da internet para promover a troca de ideias. Quanto maior o debate, mais eficazes, contundentes e honestas serão as campanhas.
P.S. O Meme de Carbono já havia alertado para a necessidade de uma campanha mais informativa e menos desajeitada.


Olá!
A gente pode enxergar o #forasarney como um tipo de panelada. Ainda que seja um protesto vazio é melhor do que um #xixicoco
Como disse lá no Meme de Carbono não gosto muito da panelada, mas vi gente boa e que escreve bem se juntando à catarse então tento ver com melhores olhos
Por outro lado tenho sido até um pouco grosso com quem vem falar comigo se dizendo indignado que me diz que não tem blog ou não publica nada na Internet porque não tem tempo para isso. Minhas respostas são do tipo “então você é parte do problema e não da solução” ou *Não é verdade que você se importa se o seu envolvimento máximo com isso é gastar 3 segundos para repassar um email que ninguém vai ler e não vai gerar nenhum debate ou troca de idéias”.
Acho que já é hora da gente dizer para as pessoas que, se estão indignadas então que participem da democracia.
Belo post!